PRIMEIRO CONGRESSO INTERNACIONAL DE ARMENOLOGIA
HAYAKIDAGAN ARATCHIN MITCHASKAIN HAMAJOGHOV

por: Sossi Amiralian
 


"Armenologia hoje e perspectivas de desenvolvimento"

Este Congresso foi realizado na cidade de Yerevan, no período de 15 a 20 de setembro próximo passado. Foram convidados 180 professores e pesquisadores universitários da área de Estudos Armênios, sendo 100 da República da Armênia, e 80 da Diáspora. No cômputo geral, foram representados 25 países, inclusive o Brasil, e lidos 176 trabalhos. O evento foi organizado pela Academia Nacional de Ciências da República da Armênia, sob a presidência do Prof. Dr. Fadey Sarkissian, e a Universidade Estatal de Yerevan, sob a reitoria do Prof. Dr.Radick Mardirossian. A realização desse Congresso teve o apoio do Presidente da República, Dr. Roberto Kocharian, e as bênçãos de Sua Santidade Karekin II, Católicos de Todos os Armênios.

O propósito deste encontro internacional foi o de conhecer e registrar as realizações que vêm sendo feitas no campo dos Estudos Armênios, por especialistas de todas as partes do mundo, avaliar os trabalhos, analisar as tendências e fazer projetos conjuntos, visando a continuidade e o desenvolvimento das pesquisas de História, Cultura, Língua /Literatura e Igreja Armênia, para melhor conhecer a Filosofia, i.e., o pensamento do armênio que norteia sua vida e respectivas manifestações, com vistas ao reforço da identidade armênia como povo.

Os congressistas dividiram-se em quatro grupos, conforme sua área de especialização. Os trabalhos de História foram apresentados no Setor de História da Academia Nacional de Ciências e da Universidade Estatal de Yerevan; os estudos relativos à Igreja, no Museu de Manuscritos Madenataran; os de Cultura no prédio de História da Universidade Estatal de Yerevan, e os de Língua/Literatura, na Faculdade de Letras da Universidade Estatal de Yerevan. Estudiosos de renome internacional também participaram do Congresso, apresentando trabalhos relevantes para as diferentes áreas da Armenologia.

Os temas abordados nas diferentes áreas, foram os mais diversificados; porém, entre os mais polêmicos, foi a questão da Língua Escrita Armênia (Ughakrutiun): Manter a língua como se escreve na Armênia atual, já com modificações, ou recuperar a escrita dos bons autores, com a chamada Mesropian Ughakrutiun? Esta discussão é bem antiga e é um dos fatores de divisão entre a Armênia e a Diáspora. Embora exista a língua armênia básica, há diferenças na escrita e na língua falada, por causa das infiltrações, por razões históricas (Genocídio, Sovietização da Armênia por 70 anos, Diáspora), geográficas (Armênia Oriental e Ocidental). Como manter a unidade da língua que é fator de integraçãodo povo armênio e de emancipação cultural? Como reorganizar a Gramática diante de duas, três ou mais realidades linguísticas e culturais, o arevelahay, o arevmâdahay, o barskeren, o armênio falado pelos armênios da Rússia? Realizar a Unificação, ou respeitar as diferenças? Como fica a Consciência Nacional com a Globalização? Como manter a imagem do Armênio entre os povos? Qual a fisionomia verdadeira do Armênio? São tensões que demonstram a complexidade da questão e que não encontraram solução ainda.
Essas preocupações de muitos necessitavam de mais tempo para serem discutidas, mas não foi o que ocorreu. Foi imediatamente controlada, para evitar polêmicas, e foi mais uma vez adiada para um outro momento..."Ughakrutian khantirâ hedatsâkvadz ê himagu himá".

Outro tema presente em vários trabalhos, tanto de Literatura, como de Cultura, foi o da Identidade do Armênio na Diáspora. As tensões geradas pelo biculturalismo na vida e obra de escritores de exílio, bem como nas criações de outros intelectuais e artistas, levou os congressistas a refletirem sobre as conseqüências das contingências históricas que ainda perduram na vida dos Armênios na Armênia e na Diáspora. Uma vez dispersos, como é possível manter a Armênia fora da Armênia? No contexto das teorias modernas das nações, como fica a IdentidadeArmênia?

Quanto aos estudos relativos à Igreja Armênia, ao lado de pesquisas em torno das artes sacras, música, arquitetura, iconografia, relíquias, a Bíblia armênia, história da formação da Igreja, Cristianização da Armênia, concílios, e outros, enfatizou-se anecessidade dos estudos teológicos dentro dos estudos de Armenologia, bem como a importância do papel da Igreja Armênia nas Ciências e na Educação.

Conclusões:

A opinião geral, tanto da liderança como dos congressistas, foi a de que o Congresso foi significativo, por ter aproximado especialistas de Estudos Armênios de vários países, conhecer seus trabalhos e promover um melhor entendimento, a despeito das distâncias e diferenças. Acredita-se na possibilidade de uma colaboração mútua e processo de desenvolvimento nos Estudos Armênios, no sentido de rever e revitalizar todos os nossos valores, sejam eles lingüísticos, históricos, culturais, filosóficos ou religiosos, para reforçar a identidade Armênia como povo, na Armênia e na Dispersão. Os Armênios vivem um destino difícil, impõe-se uma responsabilidade recíproca: é necessário que a Armênia se volte mais para a Diáspora, e a Diáspora para a Armênia, procurando rever e considerar a trajetória histórica de cada uma, entender as diferenças, ter mais encontros e reuniões entre os armenólogos e fazer projetos conjuntos. Isto, porém requer tempo, verba e continuidade.

Foram discutidas as dificuldades de ordem prática, educacional , sociológica e conceitual, no ensino da língua Armênia. Foram colocadas as necessidades para o aperfeiçoamento dos Estudos Armênios em níveis de Graduação e Pós-Graduação, mais contatos entre as Universidades e Centros de Estudos de Armênio em todo o mundo, incentivos às pesquisas, acesso a arquivos, publicações e outras sugestões relevantes por parte do acadêmico Vladimir Bakhkutarian, no sentido de preparar profissionais e especialistas que se envolvam com mais empenho, nas diferentes áreas dos Estudos Armênios.

Decisões finais: 1.o próximo Congresso será daqui a três anos. Nesse ínterim, haverá reuniões menores de alguns especialistas internacionais, para tratarem de questões específicas;. 2. O programa de desenvolvimento dos Estudos Armênios deverá merecer a atenção, e ser uma das prioridades na agenda da Presidência da República; 3. Criação de um Centro Internacional de Armenologia, abrangendo as respectivas áreas de estudo, e sediado em Yerevan; 4. Criação de um Fundo para os Estudos Armênios, com verba do Governo do País; 5. Deverão fazer parte do Centro e do Fundo, especialistas da Armênia e da Diáspora.

Sossi Amiralian
Congressista do Brasil
SP.05.12.03