NOSSA OPINIÃO

VISITA DE GUL À ARMÊNIA

As principais agências de notícias e a mídia internacional acompanharam e divulgaram, passo a passo, a inédita e histórica visita do presidente da Turquia, Abdullah Gul, à Armênia, no sábado, dia 06 de setembro de 2008.

A visita já vinha amadurecendo há algum tempo, mais especificamente desde que, há aproximadamente dois meses, o presidente da Armênia, Serge Sargssyan declarou, durante uma visita a Moscou, que formulava um convite ao seu colega turco, a fim de este fosse a Yerevan no dia 06 de setembro, para os dois acompanharem, juntos, a partida de futebol entre as seleções nacionais da Armênia e da Turquia, dentro do âmbito das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA, para 2010.

A notícia, no primeiro instante, pegou de surpresa e surgiu tal qual um relâmpago, visto que ninguém esperava por isso. No entanto, o presidente Serge Sargssyan tomou a iniciativa corajosa, mesmo arriscando uma provável resposta negativa ou, simplesmente, uma atitude apática pela parte turca.

Pode-se dizer, por outro lado, que a notícia do convite inesperado do presidente armênio causou, nos dois lados, reações adversas. No caso armênio, o tradicional partido Federação Revolucionária Armênia – FRA/Tachnagtsutiun, que luta, através do seu braço da Causa Armênia pelo reconhecimento internacional do Genocídio Armênio, tomou uma posição sólida quanto à exigência de que a Turquia não tome essa visita como argumento, querendo mostrar à opinião internacional, que os armênios teriam relegado a um nível secundário a questão do genocídio. Do lado turco, partidos da oposição se prostraram contra a aceitação e vista do presidente Gul à Armênia, alegando que isso prejudicaria, e mais, até seria uma traição para com as relações da Turquia com o Azerbaijão, o que concerne, principalmente, ao conflito de Nagorno-Karabagh (Artsakh).

Os últimos acontecimentos no Cáucaso, e mais especificamente na Geórgia, no entanto, fizeram com que uma nova ordem surgisse nessa região tão conturbada por questões étnicas não resolvidas, ou melhor, emendadas e costuradas de forma precária (e às vezes injustamente) ainda nos idos tempos dos primeiros anos da sovietização de toda essa região, razão pela qual, os conflitos étnico territoriais, tanto na Geórgia (principalmente os ossetes e abkhazes), como no Azerbaijão (o território historicamente armênio de Nagorno-Karabagh-Artsakh-), para não falarmos das regiões de Nakhitchevan e Djavakh, também armênios, e que se encontram, hoje, o primeiro, sob jurisdição do Azerbaijão, e o segundo ao sul da Geórgia.

A mal sucedida e inoportuna aventura a que se lançou o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, ao querer silenciar, por força do uso bélico, as reivindicações da população da Ossétia do Sul, causar-lhe-ia uma derrota catastrófica tanto no campo militar como no campo territorial, pois a Rússia interveio, decididamente e sem titubear, para evitar que se ocorresse, tanto na Ossétia do Sul como na Abkházia, uma limpeza étnica sob a forma de um genocídio, e que culminou com o reconhecimento, por parte da Rússia, da independência desses dois territórios.

Fizemos essa breve retrospectiva dos recentes acontecimentos, para salientar em que nível delicado e quão sensível se encontra, atualmente, a situação política em toda a sofrida região do Cáucaso. Campo de interesses das potências do oriente e do ocidente de outrora, essa região permanece, ainda em nossos dias, ser o objeto da atenção estratégica dos poderes modernos. E é nesse contexto que a Armênia tenta levar adiante, de modo equilibrado e sustentável, até sabiamente, diríamos, sua política externa. Sem saída para o mar, a economia do comércio exterior da Armênia depende, na sua quase absoluta totalidade, da passagem terrestre via Geórgia para escoar, pelo mar Nego e através dos portos da Geórgia, suas exportações e importações. Visto que a fronteira com a Turquia permanece fechada, suas relações com o Azerbaijão estremecidas, devido ao conflito de Nagorn-Karabagh (Artsakh), resta pouco para a Armênia, além das vias da Geórgia, ao norte, e do Irã, ao sul.

Se, por um lado, a visita do presidente Gul a Yerevan pode ser visto como o início de uma reaproximação entre os dois países, por outro, pode servir também para fazer crescer a influência da iniciativa de uma plataforma turca que visa promover a estabilidade e paz no Cáucaso, sob a anuência e acompanhamento assíduo da Federação Russa, aliada estratégica da Armênia.

Mas cabe, aqui, perguntar a que custo teria a Armênia normalizada suas relações com a sua vizinha ao oeste, e se a Turquia reforçaria, mesmo depois da histórica e inédita visita de Gul à Armênia, a impor ou exigir o cumprimento de precondições? E a questão do reconhecimento do Genocídio Armênio, que é um fato mundialmente contestado e devidamente registrado e comprovado nos anais da história, porventura isso seria posto “ao estudo” ou “à análise” de pesquisadores e historiadores, como se todas as provas, testemunhos, tomos e tantas dezenas de centenas ou milhares de documentos oficiais depositados nos arquivos das potências da época da I Guerra Mundial não tivessem comprovado os trágicos e sistemáticos massacres que foram cometidos pelas autoridades do Império turco-otomano, antecessor da Turquia atual.

Foi esse o recado e a exigência dos milhares de manifestantes que se espalharam desde o aeroporto internacional de Zvartnots, em Yerevan, até as adjacências do estádio Hraztan e no memoral-monumento de Dzidzernakaberd, erguido em homenagem aos milhões de mártires armênios de 1915-1923, perto do estádio onde foi realizado o jogo das seleções da Armênia e da Turquia, na presença dos presidentes dos dois países.

Qualquer iniciativa que tende a disseminar a paz e a estabilidade, a solidariedade e a confraternização entre povos e nações é bem vinda, e muito bem vinda, desde que isso não seja usada em prol de campanhas de interesses unilaterais, nem pressuponha soluções dos problemas existentes favorecendo apenas um dos lados. Há quase um século, toda uma nação era dilacerada e arraigada, brutalmente, do seu habitat natural, do seu próprio solo pátrio, da sua terra ancestral de mais de três milênios. E qualquer historiador, pesquisador ou especialista na questão do genocídio deve considerar, antes de mais nada, este detalhe inalienável e inesquecível.

A Armênia e todo o povo armênio, cuja maioria, já na sua terceira geração, está disperso, hoje, nos quatro cantos do mundo, único e exclusivamente por motivo da conseqüência do genocídio perpetrado pelas autoridades turco-otomanas, ao mesmo tempo em que quer e precisa da paz, harmonia, estabilidade e progresso, não pode esquecer a trágica página que foi registrada nos anais de sua história contemporânea. A Turquia, por sua vez, se está, realmente, interessada em patrocinar uma paz e estabilidade próspera e duradoura na região do Cáucaso, se está interessada em integrar-se na grande família da União Européia, também não pode esquecer e deve rever a sua história recente, a página trágica que registrou na sua história.

Que a visita do presidente Abdullah Gul seja, efetivamente, o início de uma nova era nas relações entre os armênios e turcos, relações essas tão abaladas e cheias de feridas e cicatrizes visíveis, mas que podem se atenuar e curar-se, definitivamente, espera-se, se houver uma boa vontade e  determinação de aproximação deveras sincera nas questões que têm afastado esses dois povos tão próximos e, como disse o próprio presidente Gul, durante seu encontro com o presidente Sargssyan, em Yerevan, “que têm compartilhado uma vida comum há séculos”.

Y.T.

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