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NOSSA OPINIÃO, NOTAS, COMENTÁRIOS E ARTIGOS APÓS A ASSINATURA DOS PROTOCOLOS, Mal se passara a
semana da assinatura dos Protocolos Armênia-Turquia, na Suíça, eis que o
influente jornal israelense “Haaretz” publicava, em
sua edição de domingo, 18/10, um artigo escrito por Ofri
Ilani sobre o Genocídio, suas consequências
e a assinatura dos Protocolos. Talvez numa coincidente consequência
da recém surgida e assim chamada “guerra fria” entre Israel e Turquia, o que
pode surpreender ao leitor é que, após muito silêncio sobre o tema do Genocídio,
eis que um importante matutino israelense lança luz sobre o tema armênio.
Reproduzimos o artigo, na íntegra, para o conhecimento dos nossos leitores.
Agradecemos, ademais, a colaboração do nosso estimado amigo Marcos Boghos Avedissian pelo envio do
artigo abaixo, cujo teor, de responsabilidade do seu autor, não representa,
obrigatoriamente, a opinião deste site. LEMBRAR PARA ESQUECER Por Ofri
Ilani Numa colina com vista para a capital armênia,
Yerevan, um monumento homenageia o assassínio do
povo armênio. Desde que o país obteve a sua independência em 1990, os líderes
estrangeiros visitantes visitam este monumento e plantam uma árvore num
pequeno bosque dedicado às vítimas. As primeiras fileiras das árvores contêm placas de
Vladimir Putin, Jacques Chirac, Papa Paulo II e de alguns
líderes da Europa oriental. Não há nenhuma placa por parte dos líderes
israelenses ou americanos. De fato, tão poucos líderes concordaram em
reconhecer o genocídio que, a partir da segunda fileira, as autoridades desse
local tiveram de contentar-se com os nomes de altos funcionários de várias
organizações. Uma árvore foi plantada pelo presidente da associação europeia dos dentistas, uma outra pelo presidente da
federação internacional de levantamento de peso. Enquanto a negação do Holocausto dos judeus europeus
produz condenações internacionais, muitos países mantêm uma política de não
reconhecimento do genocídio armênio, que foi perpetrado pelos turcos. Isto ocorre
não por uma falta de documentação sobre os massacres, mas por causa da enorme
pressão política turca. A Armênia, por sua parte, tem empreendido um esforço
persistente – e em alguns casos com êxito – exigindo a retificação contínua
deste erro histórico. Nesta semana, viu-se um desenvolvimento dramático no extenso
e doloroso conflito entre a Turquia e Armênia. Os dois países assinaram um
acordo para abrirem suas fronteiras e estabelecer relações diplomáticas
normais. O genocídio não é citado em qualquer lugar neste acordo histórico. “Estou receoso de que doravante os países hesitarão a
reconhecer o genocídio”, diz o Prof. Yair Oron, um especialista em
genocídio da Universidade Aberta de Israel, que já tem publicado diversos
livros sobre o Genocídio Armênio. “Eles dirão: por que nós outorgaremos o
reconhecimento, se os armênios se renderam? O reconhecimento do genocídio armênio
é uma questão moral supremo e um ato educacional. Nós, em Israel, somos
obrigados a reconhecê-lo. Vejo isso como um golpe perigoso para aqueles que
estão lutando por seu reconhecimento. Se o acordo for ratificado pelos parlamentos dos dois países,
isso comprovadamente poderá ser altamente benéfico para a Armênia. O pequeno
país do Cáucaso está isolado politicamente e falta-lhe o acesso para o mar.
Sua economia está em balbúrdia, e o seu governo é corrupto. Após a saída de
aproximadamente um milhão de seus cidadãos nas últimas duas décadas, o país
conta, hoje, com uma população de apenas três milhões. Na ausência de aliados
regionais, a Armênia é obrigada a confiar no vizinho Irã para apoio. Tanto economicamente como politicamente, portanto, o
acordo com a Turquia, que dará à Armênia acesso para o mar, é visto como um
bom negócio para a minúscula república. Tal como os israelenses, os armênios
também querem passar suas férias na Anatólia, dane-se a política! Mas como retorno
à abertura da fronteira, a Armênia larga completamente suas exigências
relativas às propriedades das vítimas do genocídio e os territórios armênios
que se encontram na atual Turquia oriental. Ademais, a Armênia efetivamente deixa suas exigências
quanto ao reconhecimento do genocídio propriamente dito, a pedra angular da
identidade nacional armênia. Yerevan
teve de aceitar a exigência que há décadas a Turquia vem fazendo: por um “exame
histórico objetivo” sobre se houve ou não genocídio. O primeiro acordo significativo assinado sob os auspícios
do prsidente Barack Obama levanta a questão do princípio: Será que um país
tem o direito de renunciar do seu passado em prol de suas necessidades
atuais? Será que um acordo político pode derrubar a versão oficial da história?
Porventura o estabelecimento de uma comissão chegará um denominador com a memória?
Iniciado em fins do século 19, a minoria armênia que vivia no Império Otomano se sujeito a
perseguições. Dezenas de milhares foram mortos. O
acontecimento conhecido como “Genocídio Armênio” envolveu, de forma sistemática,
a destruição de comunidades entre os anos de 1915 e 1918. Os massacres dos armÊnios começaram depois que as forças otomanas perderam
diversas batalhas contra a Rússia czarista. Os soldados armênios sob o regime
czarista se distinguiram nos campos de batalha do lado russo, e isto foi o
pretexto para o massacre dos armênios que viviam no que é hoje a Turquia. Após longas deliberações, o governo otomano decidiu
resolver, uma vez por todas, a “questão armênia”.
Primeiro, os turcos alistaram por voltar de um quarto de milhão de jovens armênios
para o exército. Eles foram, depois, despojados de seus uniformes,
concentrados em batalhões de serviços e assassinados. Na noite entre o dia 23
para 24 de abril de 1915, a política de Istambul prendeu centenas de líderes
armênios e intelectuais em suas casas; 235 foram executados. Assim, a
liderança armênia foi destruída, deixando a
comunidade incapaz de se organizar. Nesta fase, os armênios que viviam nas regiões orientais
do Império Otomano foram evacuados por uma “organização especial” de
criminosos e prisioneiros, criados por este propósito. As pessoas foram cercadas
em suas aldeias e cidades. Os homens, em geral, foram fuzilados no local,
enquanto as mulheres, crianças e os idosos foram expulsos para marchas
forçadas através do deserto sírio. No caminho, eles foram atacados e saqueados
por gangues curdos. Centenas de milhares marcharam para a morte. Em outubro
de 1915, o cônsul-geral dos Estados Unidos em Alepo
relatou para o seu governo sobre uma dessas marchas de 18 mil pessoas; 17
dias mais tarde, apenas 35 ainda estavam vivas. Os governos receberam relatos sobre o genocídio enquanto
isso ainda ocorria, mas a maioria nada fez. As estimativas atuais declaram
que por volta de um terço de todos os armênios, de 1,2 a 1,5 milhão foram
aniquilados. Os turcos alegam que apenas 300 mil foram mortos, naquilo que
eles chamam de um movimento defensivo contra a quinta coluna que havia se
juntado aos inimigos do país. Eles dizem que não foi tomada nenhuma decisão
para acaba com os armênios no Império Otomano. “Os turcos dizem: havia uma guerra, haviam
batalhas e os armênios foram mortos, assim como turcos”, diz Oron. “É verdade que os turcos não aderiram uma doutrina
tal como os nazistas, que aniquilaram cada judeu em qualquer lugar. E é
importante, também, dizer que houve casos em que os turcos salvaram os armênios.
Mas havia uma política de aniquilação dos armênios e apropriação de suas
propriedades”. “Será que o povo judeu renunciaria a memória do
Holocausto para assegurar boas relações com a Alemanha, se a Alemanha fizesse
tal exigência?”, pergunta o prof. Richard Hovhannissian, historiador que tem devotado 40 anos de
sua vida lutando contra a negação do genocídio armênio. Hovhannisian,
nascido nos Estados Unidos e leciona na UCLA, é o filho de exilados armênios
do leste da Turquia. Sua família é natural de uma aldeia que foi esvaziada
pelos turcos. Hovhannissian tem publicado muitos
livros sobre o genocídio e é considerado uma das
autoridades líderes mundiais sobre este tema. “O atual acordo é o resultado do fato de todas as potências
mundiais desejarem que todos sejam vizinhos felizes uns com os outros, independentemente
do preços imposto”, diz Hovhannissian,
falando por telefone de Califórnia. “Eles querem eliminar todos os problemas,
mas não levam em consideração as diferentes perspectivas das vítimas”. Por volta de dois terços dos armênios vivem fora da Armênia,
principalmente na Rússia, Estados Unidos, França e o Oriente Médio. Através
dos anos, relações complexas foram desenvolvidas entre a Armênia, o pequeno
estado do Cáucaso que foi estabelecido depois do colapso da União Soviética,
e a Diáspora Armênia. os armênios que vivem no
Ocidente, mandam dinheiro para sua pátria mas também podem ser acirrados críticos
da mesma. “Fiquei desapontado. Espera que a parte armênia fosse mais habilidosa nas negociações”, diz Hovhannissian. “É nítido que o governo esteve sob grande
pressão. A Armênia é um país pequeno e isolado. Ela está cercada, portanto é
natural que desejasse fazer parte do mundo. Mas acho que o governo não tinha
o direito de assinar qualquer acordo que aceitasse a situação atual, que resulta
do genocídio, como um estado natural das coisas. A situação atual da nação armênia é resultado da expulsão e captura do território
armênio pelos turcos. Mesmo que não tenhamos a força para mudar isso, acho
que não deveríamos aceitar (os Protocolos – NR). Temos a obrigação moral de não
aceitá-los”. George HIntlian,
ex-líder da comunidade armênia em Jerusalém, tem uma resposta mais aguda: “Nós,
na Diáspora Armênia, estamos chocados. É como um terremoto. É a falência da
moralidade internacional. Eles dizem que há reconciliação, mas não há
reconhecimento por parte da Turquia. É um acordo coercitivo que as potências
mundiais forçaram à ArmÊnia. A Rússia, que tradicionalmente tem apoiado a Armênia,
agora se desliza para perto da Turquia”. O que é especialmente lamentável neste contexto, diz Hintlian, é que nos últimos anos o reconhecimento do
genocídio armênio tem aumentado. “Agora eles colocam o holocausto em dúvida ao dizer:
vamos discuti-lo e ver se aconteceu. É impossível saber qual será o fim, que
tipo de fórmula será alcançado. É improvável que os turcos reconheçam o
holocausto. A comissão não tem um prazo e, ao mesmo tempo, depois de
estabelecida essa comissão, nenhum país apoiará o genocídio armênio. A Armênia
atual tem uma décima parte da Armênia histórica, e ela
assinou por suas fronteiras finais sem receber nada em retorno”. Hintlian acredita que as lacunas do
acordo ultrapassam de longe suas vantagens. “O ganho prático é a abertura da fronteira e a suspensão
do embargo”, diz ele. “Havia um embargo físico sobre a Armênia, e agora há um
embargo sobre o holocausto. Os fatos não serão enterrados, mas a discussão
internacional sofrerá um golpe”. ____________________
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