Odisséia brasileira-armênia

por: George Terterian (*)


Eu compartilho esta história depois de 2 anos, porque eu acredito que possa encorajar aqueles que queiram procurar e localizar parentes já perdidos há muito tempo. O que a história fez para separar nossas famílias, pode ser desfeito. . . às vezes com muito pouco esforço.

O TELEFONEMA

O intérprete disse que ele discaria para mim. Era uma chamada de conferência. Eu esperei. O telefone não tocou realmente, ao invés, emitiu um "zumbido." Era o som que aqueles despertadores baratos fazem. . . o som que sempre sinaliza um telefonema interurbano (de longa distância).

" Alô ". ela disse com doce sotaque brasileiro.

Em minha profissão, eu cobro para ser lisonjeiro. Porém, isto era pessoal e minha língua parecia amarrada.

"Oi "?, ela indagou, talvez um pouco aborrecida.

"Diga algo " urgiu o intérprete português da linha de idiomas da AT&T.

"Uh, um, oi, meu nome é George. Eu estou chamando da Califórnia nos Estados Unidos e eu acho que nós somos parentes".

"Que "? Ela foi pega obviamente de surpresa. " Impossível, nós não temos nenhum parente nos Estados Unidos ".

"Agora começa ", eu pensei. Eu tenho que tentar explicar a esta menina brasileira que existe a possibilidade de sermos parentes. Que o tio de minha mãe deixou o vilarejo armênio de Kessab em 1908, para nunca retornar. Que nossas famílias não tiveram essencialmente nenhum contato desde aquela época, a não ser por uma troca de fotografias no final dos anos 40 (bem antes de eu nascer). Isto seria uma conversa interessante. Se eu conseguisse fazer com que ela não desligasse o telefone.

"Esta é a residência dos Kelian"?, eu perguntei.

"Sim ", foi traduzido.

"Eu posso falar com Panos Kelian "?

"Você quer dizer Panios?" (Evidentemente a palavra " panos " em português quer dizer "trapo" ou "farrapo", entretanto na ocasião, eu pensei que era um erro tipográfico na lista telefônica.)

De repente, uma voz brasileira, ressonante e barítono perguntou, " Quem está falando "?

(Quem está falando?). 


Eu me recuperei do desafio que senti pela voz dele. " Oi, meu nome é George Terterian. Eu moro na Califórnia, e eu acho que nós somos parentes. Eu obtive seu nome na lista telefônica de São Paulo. Seu sobrenome é igual ao nome de solteira de minha mãe e ela me disse que seria possível que ainda tivéssemos parentes no Brasil ". Eu estava sendo coerente, mas talvez estivesse dando muita informação de uma vez.

"Que" ? ele me respondeu pela segunda vez. Mas, eu não era nada se não persistente.

O assunto era muito importante. Ele repetiu que não tinha nenhum parente nos Estados Unidos. Eu lhe falei que não tinha certeza se tinha ou não parentes no Brasil, e que esta era a razão para o meu telefonema.

Agora, eu tenho que explicar um pouco. Minha mãe havia previamente mencionado que tinha um tio que havia fugido do vilarejo de Kessab, levando consigo a mula da família, e nunca havia sido visto novamente. Era o começo dos anos 1900s, antes do Genocídio armênio, mas durante um tempo os armênios de Kessab eram chamados " talan " ou " os saqueadores". No começo dos anos 1900s, os Turcos atacavam freqüentemente e saqueavam Kessab que estavam na fronteira. Kessab estava ao sul de Musa Dagh, próxima dos declives do Monte Cassius, ou " Gassios Ler ", encostada ao Mar Mediterrâneo. Ambos meus pais são "Kessabtsi", e eu tenho orgulho de falar seu dialeto rico e único. Kessab é famosa não só por ter produzido mais clero que qualquer vilarejo armênio, mas também por ser o único vilarejo do lado ocidental do reino provinciano armênio de Cilicia que ainda esta em seu local original, graças ao fato de ser na Síria, na borda turca, e não vice-versa. Os outros vilarejos armênios pereceram no genocídio da Primeira Guerra Mundial, com a exceção heróica de Musa Dagh que resistiu e foi salva pela frota Francesa e, cuja população, eventualmente se mudou em massa para um vilarejo no Líbano chamado Anjar.

CONEXÃO BRASILEIRA

Em 1996, eu comecei a praticar advocacia. La pelo verão de 1997 meu inexperiente escritório de advocacia tinha bastante dinheiro para patrocinar um time de futebol local. O time era uma mistura de muitas nacionalidades, armênio, japonês, mexicano, chileno, americano, guatemalteco e brasileiro.

De qualquer maneira, os brasileiros em meu time, Hamilton de São Paulo, César do Rio, Gustavo e Luciano de Porto Alegre, todos trabalhavam como entregadores de comida para o restaurante chinês que eu freqüentava perto do meu escritório, sempre falavam do Brasil. Como nos tornamos mais amigos, eu ia a tradicionais churrascos brasileiros com eles. Eu fui exposto à bonita cultura brasileira, calorosa e aberta. Isto me lembrava de alguns modos, da minha própria cultura, especialmente o acolhimento caloroso, cordial e a atmosfera tão casual. Porém, eu achei que os brasileiros aceitam mais e não pertencem tanto a um clã especifico como a maioria de meus colegas armênios. Mas o interessante era que o "churrasco" e a " cachaça " deles eram como os nossos "khorovadz" e " oghi ".

Um dia, eu mencionei a meus amigos brasileiros que minha mãe tinha alguns parentes em algum lugar no Brasil. Eles rapidamente perguntaram "aonde "? Eu fiquei envergonhado pois não tinha resposta. Eu disse, " honestamente eu não sei. Mas vou descobrir. Isto me levou a minha "odisséia brasileira".

Eu falei com minha mãe e com seu primo em Boston. Ninguém realmente sabia exatamente aonde, mas estavam em algum lugar no Brasil. Talvez no Rio, ou em São Paulo. Eu decidi procurar. Minha mãe recontou o que ela pôde. Ela disse, "eu me lembro de ter 15 ou 16 anos e ter tirado uma fotografia com a família. Um homem armênio do Brasil estava visitando o Líbano e achou meu pai (Yessayi Kelian). Nós não sabemos como. O homem disse que tinha notícias do irmão dele, nosso tio Garabed. Ele deu uma fotografia da família para meu pai. Os irmãos não tinham se visto há mais ou menos uns 40 anos. Meu pai chorou. Nós nunca mais tivemos notícias deles".

A fotografia era de Garabed Kelian, agora um homem muito mais velho, mais ou menos em seus sessenta anos. Garabed estava rodeado por uma bonita senhora, que não perecia armênia, e várias crianças bonitas, alguns pareciam "mais armênios" que outros. 

Yessayi Kelian não tinha visto seu irmão desde que tinham uns 20 anos de idade, isto mais ou menos em 1908. Então a família de minha mãe também tirou uma foto para dar a este homem armênio, com esperanças que chegaria as mãos de meu Tio Garabed. Na ocasião, na época do verão de 1947, a família de minha mãe tinha deixado Kessab e estava em Beirut e Ghazir, ao norte de Beirut. Meu tio trabalhava no vinhedo do Castelo de Musar em Ghazir. De alguma maneira, ficaram sabendo no Brasil, provavelmente por algum colega armênio que havia emigrado para o Brasil, que nossa família estava em Beirut. Os detalhes são a história.

Minha mãe se lembrou da fotografia tirada no vinhedo. Meus avós maternos, Yessayi e Manoushag Kelian e suas cinco crianças: Zenop, Simon, Noubar, Mary, e minha mãe Sirvart. Ela nunca viu a fotografia, e nunca soube se chegou as mãos de seu tio. Eles não tiveram nenhum contato depois que tiraram as fotografias da família no verão de 1947.

PRÓXIMA PARADA, CONSULADO BRASILEIRO

Eu tirei de folga o dia depois de Ação de Graças em 1997. Era um dia bom para ir ao Consulado brasileiro na Wilshire Boulevard, no edifício elíptico e escuro chamado Larry Flynt. Logo que entrei, expliquei com pressa que estava procurando por parentes no Brasil. "Você tem o endereço deles ou número de telefone"? A recepcionista linda perguntou. Meu primeiro pensamento foi que se os tivesse poderia ligar ou escrever sozinho! eu resisti a vontade de responder e só lhe disse "que não, que só tinha o sobrenome, se o tio de minha mãe tivesse tido filhos, eles teriam o mesmo sobrenome que seria, Kelian ".

Eu fui acompanhado para a biblioteca, cheia de páginas amarelas e listas telefônicas brasileiras. Eu notei o tamanho da biblioteca e decidi me acomodar. Primeiro, eu procurei na lista telefônica do Rio de Janeiro, em parte porque eu gostei da idéia de poder visitar meus primos em Copacabana ou em Ipanema. Não tive sorte. Então, eu pensei, onde iria um imigrante armênio? A uma cidade grande, eu concluí. Aonde há mais trabalho. São Paulo, pelo o que eu li e pelo o que me tinham dito, uma cidade caótica e um pouco apocalíptica com uns 14 milhões de pessoas, era a próxima cidade aonde procuraria. Em cinco minutos eu o encontrei: " Kelian, Panios ". Ele era o único Kelian na lista telefônica. Eu tenho um primo Panos Kelian no Canadá. Analisando o tamanho da biblioteca outra vez, eu decidi que Panios me conduziria aos outros parentes, se eles existissem. Eu também estava muito agitado para continuar procurando. Eu anotei o nome dele, endereço, e número de telefone, e fui embora!

Eu escrevi para Panos Kelian (obstinadamente convencido que " Panios " era um erro de ortografia). Não recebi resposta durante cinco semanas. Meus amigos brasileiros até admitiram para mim que o serviço postal brasileiro pode ser um pouco devagar. "Por que você não liga para eles ?", disse um amigo ".

Isso é o que me levou ao famoso "telefonema", como eu me refiro ao ocorrido.

O TELEFONEMA

Voltando a minha conversa telefônica. " Senhor Kelian " estava obviamente irritado ao que para ele parecia uma brincadeira, ou um trote. Que absurdo, afinal de contas provocar (cutucar uma ferida) este homem. "A família " e perguntas sobre eles sempre estiveram fora de limites para as sete crianças de Garabed e de Avelina de Jesus Kelian. Só fui aprender o porque disto um tempo depois.

" Estou dizendo novamente que não temos nenhum parente nos Estados Unidos ", ele insistiu.

" Sim, sim, sim, mas isso é porque não os conhece, certo"?

(Ah, se eu conseguisse examinar minha testemunha, sempre minha parte favorita. As rodas começaram a girar.)

" Me deixa esclarecer uma coisa, seu sobrenome é Kelian, certo?

"Sim "

" E seu pai é armênio, certo? "

" Sim, ele era. Ele faleceu"

" Eu sinto muito. Seu pai tinha família no Oriente Médio? De onde ele é?

" Líbano ou Síria. Não, Síria ".

" Bom. Meus pais são da Síria, e eu nasci no Líbano. Sabe, eu tenho um primo com seu nome e sobrenome ".

"Jura "?

" Sim. Sabe, o nome de solteira de minha mãe era Kelian. O nome de meu avô era Yessayi Kelian. Ele era de um vilarejo armênio chamado Kessab ".

A voz gelou. Silêncio mortal. Foi provavelmente só por uns dez segundos, mas pareceu como se fossem minutos.

"Oi "? eu indaguei, pensando que havia perdido a conexão.

"Kessab "? eu quase podia ouvir sua mente girando. Ele tossiu para limpar a garganta.

" Uhh, como eles estão, ummmm, sua família, eles estão bem "?, a voz dele falhou.

Eu respirei fundo, eu ouvi ate o intérprete respirar fundo.

Indubitavelmente esta seria uma boa história para o intérprete contar na hora do seu jantar.

Pela primeira vez, Panios Kelian soou mais armênio que brasileiro. Eu perguntei ele se ele falava o idioma armênio.

" Não, só português ".

" Não importa ", eu disse. " Você sabe, minha mãe teve um tio que foi para o Brasil ha muito tempo atrás. Eu queria saber se ele era seu pai, avô ou tio? Desde que vocês tem o mesmo sobrenome.

" Qual era o nome dele?

Nossa, eu pensei, minha mãe me falou uma vez, que era Hagop ou Khatchig, ou não, Khatchig estava na Austrália. " Honestamente eu não me lembro, mas perguntarei a minha mãe, eu prometi.

" Bem, muito bom, eu falarei com meu irmão mais velho e irmãs ".

Nós trocamos números de fac-símile (fax), e-mails, e todas nossas informações. Antes de nós desligarmos, ele disse, (como me disse o tradutor), que já tinha virado meu amigo, " Deus abençoe nosso povo". Eu pensei, ele quer dizer? . . . antes de preencher o espaço em branco, o intérprete disse, " ele quis dizer o povo armênio.

Eu sai de lá convencido que tínhamos achado uma ligação. Mas, eu não tinha certeza ainda que tipo de ligação. Decidi esperar antes de falar para minha mãe e para minhas irmãs. 

O PACOTE

Eu não esperei por muito tempo. Aparentemente eu acendi um fogo debaixo do Sr. Kelian. Dentro de uma semana, eu estava no escritório, a recepcionista me chamou dizendo que tinha um pacote no meu nome, era um pacote grande. Pensei que fosse outra cópia chata de um testemunho para ser revisado. " Mary, você pode buscar ele para mim, por favor, pedi a minha assistente. Mary, minha assistente voltou com o pacote. "Eu não acho que seja um testemunho para ser revisado, George ", ela disse. Não era. Eu tinha mais ou menos contado para Mary sobre minha conversa. Ela também estava esperando noticias como eu.
 
Era um pacote grande enviado de maneira expressa de São Paulo, Brasil. Brasil! Eu rasguei o pacote como se fosse um menino de nove anos de idade na manhã de Natal. Documentos e mais documentos caíram para fora, um montão em minha mesa. Uma carta, um cartão de visita, uma árvore genealógica cuidadosamente preparada no computador como um fluxograma, fotografias coloridas a laser de estranhos com caras felizes, alguns velhos, alguns jovens, todos com cara de brasileiro, com nomes brasileiros exóticos escritos na legenda. Nomes como " Iracema ", Izildinha ", Márcio " e " Rogério".

Seriam eles meus primos?

Então, meu coração pulou. Eu engoli seco e conseguia sentir meu coração subindo até minha garganta. "Oh, Deus" é tudo que eu conseguia dizer em voz alta. Lá estava. . . uma reprodução a laser, amarelada de uma fotografia em preta e branco. Rostos familiares, Yessayi e Manouchag Kelian, e suas cinco crianças: Zenop, Simon, Noubar, Mary e minha mãe Sirvart quando era uma adolescente "! Eu tive que me sentar. Quando olhei para a fotografia, eu percebi que havia algo escrito atrás. Em escrita armênia que simplesmente dizia: " Ee hishadag yeghpors Garabedin, endanegan ngar . . . sirov Yessayi Kelian, 27 Hoolis, 1947 ". . . " Em memória de meu irmão Garabed, uma foto de familia. . . com carinho Yessayi Kelian, 27 julho, 1947 ".

Mary estava irradiando, "você os achou"! ela disse.

"Sim, eu suponho que nós achamos uns aos outros ".

Eu caminhei depressa para o restaurante chinês para contar tudo aos meus amigos brasileiros.

César e Camila estavam lá. Acho que eles acharam isto tão legal quanto eu.

Agora, eu era "parte brasileiro" foi o que eles me disseram.

Eu telefonei para minha mãe mais tarde e ela estava muito entusiasmada. " EERAV, EERAV "? Ela repetia. ABRESS DGHAS "! (" Realmente? Realmente? Muito bem meu filho"!). Sim, eu também estava contente. Eu lhe disse que iria passar por lá depois do trabalho e lhe mostraria as fotografias.

INTRODUÇÃO AO BRASIL

O que seguiu foi um odisséia para todos nós. Eu comecei a aprender português com estas fitas cassete designadas para pessoas ocupadas. Ainda bem que o trânsito em Los Angeles faz com que tenhamos tempo o suficiente para aprender línguas no carro, enquanto dirigimos. Meus amigos brasileiros do time de futebol tinham a pura intenção de me ensinar somente palavrões!

Já que eu processo proprietários em nome de inquilinos na cidade e ao redor de Los Angeles, eu tenho muitos clientes latinos, eu falo um espanhol rudimentar. Assim, foi mais fácil aprender os fundamentos da língua portuguesa. Eu pensava que espanhol era um idioma bonito, e é. Mas português, especialmente o dialeto brasileiro é um dos meus idiomas favoritos. É muito mais melódico. O português brasileiro flui como uma maré.

Comecei a prestar mais atenção a tudo que era brasileiro. Eu comecei a me identificar. Panios e eu começamos a juntar todos os pedaços. Ele preparou um álbum completo de fotografias da família para mim e eu fiz o mesmo para ele. Nos escrevemos e-mails freqüentemente, e informamos um ao outro sobre nascimentos, mortes, compromissos, casamentos, etc. . . Eu lhe enviei um videotape de um casamento de família que tivemos na Califórnia. Eu comecei a receber cartas e e-mails de pessoas que se identificavam como meus primos do Brasil. Era fascinante para todos envolvidos.

O SENHOR GABRIEL KELIAN

Eu também comecei a preencher os espaços em branco para entender o "círculo quebrado" da família de minha mãe. Panios, e seus irmãos mais velhos, curiosamente chamados Simon e Mary (como os dois irmãos de minha mãe) ajudou imensamente, juntamente com as lembranças de Serop Bezdiguian, 97 anos de idade. Ele foi o único armênio a se casar com umas das filhas de Garabed. O " Kessabtsi Pesa " (ou o noivo de Kessab) era o favorito de Garabed, porque eles podiam se falar em armênio e no dialeto do velho vilarejo. Serop era velho, mas ainda forte como um touro. Garabed Kelian era o filho primogênito de Simon e Mary Kelian de Kessab. Meu avô materno, Yessayi era só mais ou menos um ano mais jovem que Garabed. Garabed Kelian deixou seus pais, seu irmão e quatro irmãs em 1908. Ele ouviu falar do Genocídio armênio, mas só podia lamentar a provável perda de sua família. Ele estava meio perdido. Ele era um homem amargo, temperamental com pouca paciência. Ele chegou ao porto de Santos, Brasil sem dinheiro, nenhum conhecimento de português, e nenhuma família. Eles o chamaram de Gabriel, como se Garabed fosse difícil! Eu suponho isso que isto e o equivalente brasileiro a Ilha de Ellis que "renomeia" os americanos.

Com persistência e umas costas fortes, ele começou a trabalhar e trabalhar, nunca acumulando bens materiais, mas sempre provendo uma casa para sua grande família. Ele conheceu e se casou com Avelina de Jesus no Estado de São Paulo. Eles foram abençoados com sete crianças, seis ainda vivem.

Mas, por que o tio de minha mãe foi embora? Panios me contou um dia no telefone.

"Meu pai era um traficante de carga com mula, você poderia dizer. Ele levava carga de Kessab para Antioch com mulas. Naquela época, os Turcos atacavam freqüentemente o vilarejo onde ele vivia. Uma vez, a caminho de Antioch, com uma mula carregada de produtos, ele foi atacado por dois soldados ou bandidos turcos. Eles o espancaram, roubaram seus pertences e sua mula, e o deixaram por morto. Ele eventualmente comprou outra mula e retomou seu trabalho. Desta vez, ele e um outro homem armênio que estavam se transportando por mulas se encontraram com os mesmos dois turcos. Os turcos tentaram os roubar, mas eles lutaram. Eles mataram os dois soldados. Bem, meu pai e este homem voltaram para o vilarejo e contaram o que que havia acontecido. Disseram-lhes que fugissem, porque se haviam sido realmente dois soldados, haveria perseguição. O exército os procuraria e os levariam com eles para que fossem enforcados. Meu pai tinha pouco tempo. Ele foi para casa. Só sua mãe Mary, estava lá. Ninguém mais. Ela lhe implorou para que ficasse, mas ele disse que se ficasse eles todos teriam problemas. Ele teve que ir. Não havia tempo. Ele pegou e mula e se foi.

Quando contei esta historia para minha mãe, ela recontou histórias contadas a ela sobre sua avó chorando anos depois quando estava morrendo de desnutrição, exposição e doença nos campos de morte de Meskhene durante o Genocídio armênio . . . "Jigerem Garabed, eench okood yete yerginke desnem kez " (Querido Garabed, que uso tem eu te ver no céu?) deve ter partido o coração de uma mãe.

Garebed vendeu a mula em Antioch que era indubitavelmente uma viagem perigosa pois ele estava indo na direção dos turcos. Ele comprou uma passagem de barco e foi para o Egito. Depois de alguns meses, ele partiu de barco para Marseille, França. Ele viveu lá por aproximadamente dez meses, então o Brasil "o chamou ". Não foi sua primeira escolha. Ele fracassou no seu exame físico para ir aos Estados Unidos, ele tinha algum tipo de doença nos olhos ou algo assim. O Brasil havia abolido a escravatura em 1888, assim precisava de homens fortes que ajudariam trabalhando em plantações de açúcar e café. Garabed era forte. Foi de barco para a cidade portuária de Santos, Brasil em 1909. Ele chegou sem dinheiro e sem nenhuma idéia de como falar o idioma português. Mas ele não foi o único.

Naquela época e durante anos, o Brasil recebeu milhares de imigrantes da Itália, Grécia, Portugal, Síria e Japão. Se a pessoa não fosse difícil de se contentar, havia trabalho em abundância. O governo também fez muitas promessas, que não cumpriu, para encorajar a agricultura no interior dos estados brasileiros. Garabed trabalhou em Santos e no literal do Estado de São Paulo, e por fim em Piraju no interior. Ele e sua família se mudavam bastante de um lado para outro. Sua resiliência foi sustentada igualmente pela flexibilidade e força de Avelina de Jesus Kelian. Uma brasileira de mistura portuguesa e sangue indígena, Dona Avelina era a matriarca da família naquelas épocas tão difíceis.

A família sobreviveu muitos tempos difíceis, mas perseverou e prosperou. Finalmente, quando as crianças já estavam crescidas, os Kelians desfrutaram o sucesso atingido. Hoje, eles estão vivos e bem, vivendo em São Paulo.

Uma coisa entretanto estranha, Garabed nunca falou da família. Panios me contou que sempre que eles perguntavam, Garabed se emocionava repentinamente, se silenciava e saia da sala. Depois de um tempo, as crianças deixaram de perguntar, quando perceberam que deveria ter sido difícil para ele deixar a família numa idade tão jovem, e nunca os ver, novamente.

Na realidade, Panios e seus irmãos e irmãs (Simon, Mary, Aracy, Iracema, e Anna) foram todos nomeados em homenagem aos pais de Garabed, suas irmãs ou tio-avô. Nenhuma das crianças da família Kelian no Brasil sabiam que tinham tias por parte de pai. Eles só sabiam que tinham um tio, " um na fotografia do Líbano". Garabed teve quatro irmãs: Hanna, Marta, Lúcia, e Ovsanna. Estes adultos crescidos ja com uns 60 ou 70 anos de idade tiveram quatro tias que nunca conheceram. Eu trabalhei para preencher os espaços em branco da árvore genealógica que estava fazendo sozinho. Primos na Austrália, Canadá, Líbano, Dinamarca, e Armênia. Eu fiz ligações, enviei e-mails e comecei a aprender mais e mais.

A VISITA AO BRASIL

Eu cheguei no Aeroporto Internacional de Guarulhos em São Paulo depois de voar por mais ou menos umas 17 horas.

Eu tive minha segunda surpresa quando depois de fazer palhaçadas (brincar) por mais ou menos uma hora, dois agentes alfandegários corruptos me pararam por excesso de bagagem - presentes que havia levado para a família. Eu passei pelos portões e vi meu primo Panios Kelian, cara a cara.

Ele estava lá com uma pequena Kombi, junto com Tio Nader, o marido da prima deles chamada Neuza e meu intérprete de inglês/português. Nader é um homem maravilhoso que passou seus anos de formação entre 11 e 13 morando com primos em Dublin, Ohio, no Estados Unidos. Esta experiência mudou sua vida. Falar inglês abriu muitas portas para Nader, um homem de origem Síria. Ele vive melhor que a maioria e trabalha para companhias americanas em São Paulo.

Minhas duas semanas no Brasil voaram. Os destaques? Não o que eu pensei que seria.

Rio de Janeiro é bonito. Meus primos André Luiz e Rogério, de mais ou menos uns 20 anos de idade e companheiros na bebida foram ótimos comigo. O Cristo Redentor com a paisagem que se vê o Rio inteiro, é de tirar o fôlego de tão bonito. Mas, os destaques foram mais eu conhecer o velho Serop e ir a reunião de família que prepararam. 

SEROP

Serop Bezduigian tem agora 99 anos, ou seja, tinha 97 em janeiro de 1998 (**). A família pensava que ele havia esquecido a língua armênia. Mas não era o caso. Por anos, ele não tinha ninguém que falasse com ele. Eu caminhei devagar até ele, eu sempre caminho devagar na frente de pessoas que já tem mais ou menos uns 90 anos de idade. "Parev" (oi), eu disse. Ele parecia confuso. Sua esposa havia dito que ele havia esquecido a maior parte do idioma. Eu não disse outra palavra ate que ele me olhou e sorriu. "Ov Ess" (quem é você)?

A partir dai, Serop e e eu passamos várias horas conversando em armênio. Infelizmente, ele tinha esquecido o dialeto de Kessab, mas o armênio dele estava bom depois de se "desenferrujar." A família ficou de queixo caído! Então, eles sorriram e disseram contentes em português: ele fala armênio!

Depois de um tempo ele começou a cantar canções em armênio que eu nunca tinha ouvido; canções sobre o "nerkakht" de 1947 (êxodo em massa ou retorno) para a Armênia. Ele cantou. . . " Hayasdanen naver gookan tebi Lipanan. . . akh jan Yerevan, kez hamar garod em, (Os navios da Armênia vêm para o Líbano. . . oh querido Yerevan, eu, anseio por você).

Serop se deliciou me perguntando o paradeiro de armênios de Kessab cujos nomes eu já tinha ouvido falar. Todos já haviam morrido há tempos. Então ele disse, com quem posso falar em armênio ?. " Polor eemin ungerner-eh meran ". . . (todos meus amigos estão mortos). Eu suponho que esta seja a parte mais difícil de ser tão velho, ele quase se sente culpado por viver por tanto tempo. Serop também pensou que todos os armênios tinham fugido ou sido expulsos de Kessab. Quando eu lhe falei que a maioria de Kessab ainda era Armênia, ele não acreditou, "Votch " (Não), " Polor Arap en hon hima " (não, eles são todos árabes lá agora). Eu eventualmente o convenci oferecendo de levar-lo lá.

Serop ja não tinha estado ao redor de armênios desde que vivia em Osasco, o velho Bairro armênio em São Paulo [Nota da redação: Osasco é um município]. É uma área industrial dominada por fabricantes de automóveis e ostenta uma velha área armênia com uma igreja, um salão, muitas padarias especializadas em fazer "esfiha", o outro modo de dizer o que eu chamava quando criança de "lahmajun". Esfiha é onipresente em São Paulo, como tacos no Los Angeles. 

REUNIÃO FAMILIAR

Meu melhor momento veio um ano exatamente do dia que eu telefonei para o Panios Kelian. Panios disse "domingo nós o levaremos para conhecer a família". Nós dirigimos por uma hora e meia da casa dele para um clube nos arredores da cidade. Era um dia úmido e quente em janeiro, no meio do verão de lá. Quando nós chegamos, eu vi um grande salão decorado com mesas enfeitadas de frutas tropicais que eu nunca tinha visto antes (e com que sonho até hoje em dia), o salão estava cheio, com mais ou menos cem pessoas. Eu achei que talvez nós tivéssemos uma mesa reservada lá e eu conheceria alguns dos primos. Eu estava errado. Eles estavam todos lá para uma reunião de família dos Kelian! Mais de cem descendentes do tio de minha mãe, Garabed Kelian, estavam esperando por mim, e alguns estavam ainda chegando no "horário brasileiro" que eu aprendi é equivalente ao "horário armênio".

Eu sobrevivi as primeiras três ondas humanas de abraços, beijos, choros e pessoas que eu nunca tinha visto e não conhecia me dizendo: "Oi primo!" De repente vi um grupo de crianças muito jovens, talvez de seis ou sete anos de idade, abraçando minhas pernas ai eu não agüentei e comecei a chorar. Eu me desculpei e dei uma saída para recuperar meu fôlego. Lá, dei de cara com outra multidão. Era Tia Iracema, a mais emotiva sem dúvida, de todos os primos, me pegou e, embora eu não entendia o que ela estava dizendo, eu sabia que ela estava dizendo, " tudo bem, nós sentimos o mesmo ".

Nós ficamos no salão, comendo, bebendo, dançando música armênia e brasileira. Aquele dia eu fiquei acordado a noite toda ate de manhã, bebendo, conversando, rindo e chorando com meu "primos ".

Enquanto tirávamos fotos, e eu me sentindo cada vez mais como um dignitário estrangeiro sendo mimado posando para fotos, nós finalmente fizemos um círculo e brindamos com um drink de conhaque de Ararat. Eu contei para meus primos sobre a nova jornada para nos acharmos e jurei que, desde que o mundo está se tornando um lugar tão pequeno, nós nunca perderíamos novamente uns aos outros. A família Kelian tinha fechado o círculo quebrado. Nós temos primos em vários lugares: Austrália, Estados Unidos, Canadá, Líbano, Armênia.

Em resumo, como a maioria das nacionalidades e separada por circunstâncias históricas, o sol nunca se põe numa família armênia.


ATUALIZAÇÃO: MUSEU DE IMIGRAÇÃO

Recentemente, Panios Kelian foi entrevistado pelo Museu de Imigração no Brasil.

Ele contou a história da vinda de seu pai para o Brasil e de nossas famílias. A história da família foi incluída no museu. 

George Terterian <gterterian@earthlink.net>
Los Angeles, Califórnia.


(*) agradeço a minha querida amiga Debora Wolf por traduzir este texto para o português.
(**) Essa história foi escrita entre 1999 e 2000. O Sr. Serop Besduigian já faleceu.