“OSMANLININ KANLI TARIHI” 
(A História Sanguinária dos Otomanos)

Por Ismail Mehtin


Publicação: Ant Yayinlari, Istambul, Turquia, 1996, 448 págs.
Resenha/Comentários: Dr. Sarkis Karayan

O autor deste livro não é um armênio, nem um missionário cristão politicamente inocente, mas um advogado turco de quarenta e dois anos de idade. Neste livro ele apresenta, comprovadamente, a história sanguinária e cruel dos sucessivos governos Otomanos através dos séculos, inserindo trechos de notáveis historiadores turcos, assim como do escritor francês Alfons de Lamartin e o conhecido historiador alemão Joseph Von Hemmer.

Com 24 capítulos distribuídos em 448 páginas, o livro foi escrito em idioma turco e não foi traduzido para outro idioma. O conteúdo das matérias se assemelha ao de um livro que apresenta todos os recursos e ensina como humilhar, castigar e matar as pessoas.

Neste artigo, limitar-me-ei a fazer várias extrações abrangentes de textos de historiadores turcos, para me dirimir dos textos “preconceituosos” de escritores estrangeiros. Geralmente, quando historiadores turcos ou estrangeiros simpatizantes a esses lêem artigos ou publicações de cunho desfavorável ao período da dominação otomana, atribuem-nos à propaganda “enganosa” das organizações armênias.

No prefácio desta obra, o editor turco do livro afirma ser muito lamentável observar atualmente as autoridades turcas pagarem remuneração aos professores com os impostos que arrecadam da população, exigindo que estes ensinem aos alunos a história do período otomano de forma meio certo e meio errado. E para exemplificar, afirma que a maioria dos sultões otomanos e os primeiro-ministros não tinham morte natural, mas eram afogados, estrangulados ou envenenados pelos próprios familiares no poder. Mas os livros didáticos não indicam tal realidade.

No primeiro capítulo, o autor explica o motivo que o levou a escrever este livro. Ele diz: “Neste capítulo, explicarei em linhas gerais o sistema da estrutura do governo otomano e a atividade do trabalho, como os funcionários do governo lesavam a população simples, e como os sultões esbanjavam enorme quantidade de dinheiro com suas concubinas. Na página 12, o autor demonstra como a oligarquia otomana conseguiu manter sua autoridade através dos séculos, dizendo: “Ao amedrontar o povo, promovendo matanças e organizando massacres desmedidos; o Império sabia muito bem que o povo não gostava de seus governantes. O lamentável é que, a brutalidade imposta sobre os povos do Império Otomano já se transformara num fato natural para o povo. Os povos que constituíam esse Império não tinham sérias divergências entre si. A única questão que incomodava o povo era o comportamento cruel do governo”. Ismail Metin acrescenta, evidentemente falando em termos proporcionais que, o governo Otomano foi erguido sobre os esqueletos das pessoas, e o sangue das pessoas foi usado como argamassa, para que se pudesse manter viva a estrutura do Estado.

A EXTORSÃO

Na segunda parte do livro, Ismail Metin refere-se à institucionalização da extorção no governo otomano, ao dizer que esse hábito, tal qual o câncer, havia cercado e afetado todas as camadas do governo, tornando inviável a existência de uma ordem justa. Metin acrescenta que o governo não tinha como esquivar-se desse pântano (bu bataktan kurtulmasi imkansiz hale gelmisti). Desde o sultão ao mais humilde funcionário, nada se executava sem a extorsão. Até mesmo a mãe do sultão recebia e dava propinas, quando necessário. O Primeiro-ministro otomano, que era chamado também de “sadrazam”, era uma pessoa muito rica graças à extorsão. O povo sabia muito bem que os juizes não tomavam nenhuma decisão sem a extorsão. Metin diz que uma das causas principais que causou o desmoronamento do Império Otomano foi essa prática. O sultão concedia função a quem fazia-lhe fazia maior oferta, não às pessoas capacitadas. Como exemplo, o autor cita o fato do governador eficaz do Egito, Hadim Pachá, que foi destituído pelo sultão, e em seu lugar foi apontado Mir Alem Aghá, com muito menos experiência para o cargo, mas que havia prometido cem mil ouros amarelos para o sultão. O autor obteve este dado no terceiro tomo do livro “Osmanle Tarihe” (História dos Otomanos), do Prof. Ahmed Mumdji Uzuncharchele. Metin apresenta um segundo exemplo extraído do livro “Osmanle Deovletindé Richvet” (A extorsão no Estado Otomano) do Prof. Ahmed Mumdji, página 59. Nele, o sultão Selim I, que também era chamado de Yavuz por sua esperteza, queria conquistar o trono do Império, mesmo antes da morte de seu pai, o sultão Bayazit II. Para alcançar seu objetivo, ele extorquiu os funcionários influentes do palácio, e conseguiu destronar seu pai. Não satisfeito com isso, ele ofereceu uma grande importância a um médico judeu, exigindo que o médico matasse o sultão, seu pai, por envenenamento.

A VIDA SEXUAL DOS SULTÕES E O HARÉM

Ismail Metin refere-se também à vida no harém do palácio do sultão. De acordo com a lei islâmica, um homem tem direito a possuir quatro mulheres e muitas, até centenas de concubinas. Metin diz que essa situação prejudicava profundamente a economia do país, criando margem para diversos tipos de traição. O autor revela, ademais, outra face até então desconhecida sobre a vida sexual dos sultões. Ele afirma que o sultão e seus amigos íntimos praticavam homossexualismo abertamente.

Sabemos que o homossexualismo é considerado como um pecado desde a antigüidade, tanto pelo cristianismo como pelas religiões muçulmana e judaica. O sultão turco não possuía apenas o título de líder máximo do Império como rei, mas também era considerado o líder espiritual superior da religião islâmica, razão pela qual ostentava também o título de Califa. Mas apesar disso, muitos dos sultões praticavam o homossexualismo com jovens ou adolescentes, os quais eram trazidos até o palácio real depois de cada vitória no campo de batalha. O autor nos fornece um exemplo típico disso: o sultão Mehmet II, conquistador de Constantinopla, que também era conhecido como Fatih, o que significa vitorioso, era um homossexual. E para comprovar isso, Metin apresenta o seguinte fato: certo dia, Mehmet II vê um belo menino de 14 anos de idade caminhando junto com seu pai, o padre Lucas Notaras. Aproximando-se do pai do garoto, o sultão pede a este permissão para manter relação sexual com o adolescente. Evidentemente, o pai recusa a ceder ao pedido do sultão que, muito irado, manda que executem imediatamente o padre, e a seguir rapta o menino para satisfazer o seu instinto. Metin obteve esse dado no livro “Osmanle Padechahlar”, página 207, de autoria do historiador turco Recham Ekrim,. Metin revela que, além do harém dedicado exclusivamente às mulheres do palácio, existia ainda uma divisão separada onde eram mantidos os adolescentes, para satisfazer o sultão.

Como médico que sou, surge uma curiosa pergunta na minha mente: porquê os sultões, que tinham à sua inteira disposição centenas de mulheres, eram também homossexuais. Será que isso ocorria pelo fato de serem eles impotentes, ou tal fato era hereditário nas gerações dos sultões? Nunca encontrei qualquer artigo ou pesquisa sobre esta questão. Atualmente, a ciência não define com precisão qual a causa principal do homossexualismo. A única coisa que foi revelado há alguns anos é o fato de este fenômeno ser hereditário no caso dos homens, e que antes mesmo da criança nascer, alguns hormônios no embrião podem ser a causa do futuro homossexual, razão pela qual o homossexualismo não pode ser considerado um pecado. Não sei ainda como as autoridades eclesiásticas irão resolver a questão de abolir da lista dos pecados o homossexualismo.

ESCRAVIDÃO

Depois de cada vitória dos exércitos otomanos, as pessoas da nação derrotada, geralmente mulheres e crianças, eram levadas para as grandes cidades e vendidas como escravas nos mercados ou feiras. O maior centro de comercialização de escravos era a capital, Istambul. De acordo com alguns historiadores, o número de escravos disponíveis em Istambul era próximo dos cem mil. Por outro lado, era comum ver soldados turcos serem remunerados com escravos, não em espécie.

“COLETA” DE CRIANÇAS

Uma das piores atitudes do governo otomano era a “coleta” das crianças de famílias cristãs, ou seja, ao invés de cobrar “imposto” em espécie, crianças eram recolhidas por conta do “pagamento de imposto”. A cada triênio ou quadriênio, funcionários do governo “visitavam” as famílias cristãs e separavam brutalmente todos os meninos saudáveis entre 10 e 12 anos de idade (segundo alguns, os de 14 a 17 anos). Esses adolescentes eram posteriormente convertidos à religião muçulmana, e eram turquificados. Esse ato desumano e selvagem, praticado a nível oficial e que não tivera seu precedente na história, era chamado de “devchirmé”. Os tenros adolescentes que eram separados de seus pais e recolhidos, eram educados de tal forma que, ao atingirem a idade do serviço militar, se encontravam preparados para tornar-se “ienitcheris”, ou soldados valentes e fiéis do exército turco. Diversos escritores turcos afirmam com certo orgulho que, ao proceder assim, o governo otomano possivelmente estivesse realizando uma boa atitude, pois os meninos recolhidos pelo governo receberiam uma boa educação. Efetivamente, devido às suas habilidades, alguns poucos desses garotos puderam galgar postos elevados. Mas o autor do livro, Ismail Metin, afirma que a coleta desses meninos visava dois objetivos fundamentais: primeiro, fortalecer o exército turco com forças novas, e segundo, diminuir o número da população masculina cristã, e no que se refere particularmente aos armênios, transformá-los em uma minoria dentro de sua própria e milenar terra ancestral.

Outro destacado historiador turco, Prof. Halil Inaltchek, no seu livro “The Ottoman Empire: The Classical Age 1300-1600”, editora Phoenix Press, 1973, London, página 78, revela o seguinte sobre a questão dos meninos recolhidos: “O governo otomano considerava o recolhimento das crianças como uma taxação sobre os cristãos, e não considerava como escravidão forçada o ato de turquificá-las”. Inalchek afirma que isso foi algo muito impiedoso e extremamente cruel. Ele também diz que, apesar de certas famílias pobres consentirem ceder seus filhos, a maioria absoluta, no entanto, mão concordava e cedia forçosamente, depois de sofrer agressão física. Inaltchek diz que, de acordo com algumas fontes, recolhiam-se por volta de mil garotos. Mas de acordo com outras fontes, esse número ultrapassava os três mil anuais. De acordo com meus cálculos e baseado no número total dos armênios, esse número certamente seria bem maior.

Como prova disso, podem ser apresentados os números que se seguem: Jean-Baptiste Tavernier, conhecido escritor e viajante francês, que no século 17 viajou seis vezes para a Índia, passando sempre pela Armênia, escreve dizendo que na Anatólia Oriental, isto é, na Armênia histórica, a maioria absoluta da população era constituída de armênios. (Jean-Baptiste Tavernier, in “Les Six voyages quil a fait aux Turquie, aux Perse, et aux Indes pendant l´espace de quarante ans”, Paris, Pierre Lê Boucher, 1678 - 3 volumes).

Apesar de não existirem dados oficiais sobre o número dos armênios, estimo que esse número oscilasse ao redor de UM MILHÃO naqueles idos anos. Partindo desse princípio, dez por cento de uma população de um milhão estaria na faixa etária de 10 a 14 anos de idade. Logo, as crianças que eram “coletadas” ou “recolhidas” somariam por volta de CEM MIL. Se dividirmos este número por dois, visto que as meninas não eram recolhidas, teremos CINQÜENTA MIL garotos serem submetidos a tal ”colheita” a cada quadriênio, o que perfaz 12.500 garotos a CADA ANO, e não apenas três mil, como cita Halil Inaltchek. Fazendo um simples cálculo, ver-se-á que num período de CEM ANOS, esse número chega a QUINHENTOS MIL! Pode-se deduzir daí como é que elemento turco veio a transformar-se em maioria na Ásia Menor. E ainda: ficam fora desse cálculo os milhares de outros adolescentes cristãos não armênios. Convém lembrar que, os interessados em realizar pesquisas ou desenvolver temas de teses sobre este assunto, podem obter vasto material sobre os otomanos no livro do renomado historiador Prof. Avedis Papazian, “Documentos turcos sobre a Armênia e os Armênios - séculos 16 a 19”, Yerevan, 1999, páginas 166-174.

MÉTODOS DE TORTURA E FORMAS DE MATANÇA ADOTADAS

Ismail Metin narra no seu livro os métodos inimagináveis de tortura que o governo Otomano adotava para castigar os culpados. Por exemplo, se um homem raptava uma moça para casar em ela, ao ser preso, arrancavam-se à faca os seus órgãos genitais. A informação consta no livro de Taner Aktcham “Siyasi Kulturumuzde Zulum vê Iskence” (A impiedade e a tortura na nossa cultura política). Existiam diversos meios de castigar o preso, tais como arrancar o nariz e as orelhas, arrancar os olhos cavando-os com faca, cegar a vista a vinagre fervido ou através do derramamento de vela quente nos olhos da vítima (vide livro mencionado de T. Aktcham - página 28, e também no livro “Osmanli Devletinde Siyaseten Katl” / A matança política durante a dominação Otomana / pág. 87, de autoria do Prof. Ahmed Mumdju).

Ismail Metin diz, por outro lado, que os condenados à morte eram antes submetidos a diversas torturas, tais como imersão em água extremamente gélida, crucificação, arrancar das unhas das mãos e dos pés, quebra dos ossos dos braços e das pernas com pancadas de martelo, etc. Os condenados à morte eram enforcados ou decapitados. Caso o condenado fosse um alto funcionário, sua cabeça era posta à exibição popular por três dias diante de um imóvel governamental. Uma das pessoas maias destacadas condenada à morte foi o Paxá Midhad. Ele foi o primeiro a tentar introduzir reformas na Turquia na década de 1870, e foi autor da Constituição Otomana de 1878, algo que o sultão Abdul Hamid não desejava. Por isso, através de decreto do “bondoso” sultão, ele foi julgado culpado e foi deportado em 1881 para a fortaleza da cidade de Taef, na Arábia. Não satisfeito com isso, o sultão “vermelho” (alusão ao sultão Abdul Hamid - NT) ordenou que o Paxá Midhad fosse decapitado. A cabeça embalsamada do Paxá foi enviada para Istambul, como prova do cumprimento da ordem do sultão. Ismail Metin não registra o caso de Midhad.

A LEI FRATRICIDA

A história da humanidade tem registrado freqüentes desavenças e assassinatos em determinada dinastia reinante pela sucessão e posse da coroa quando ocorria o falecimento de um rei. Muitos impérios se desmantelaram por causa das lutas internas pela conquista do trono. A sucessão da dinastia no Império Otomano permaneceu ininterrupta de 1300 até o início do século 20, aproximadamente 700 anos. Os Habsburg da Áustria e os Hohentsolern perduraram apenas 300 anos cada, e os Romanov da Rússia, 400 anos.

A causa da longevidade da dinastia imperial otomana deve-se ao fato de que, o Sultão que assumia o trono do reino, mandava imediatamente executar seus irmãos, para ficar isento de qualquer competidor. Os carrascos surdos e mudos do sultão os enforcavam com fios de violino.

O fundador do Império Otomano, Osman Ghazi, degolou com as próprias mãos o seu tio, o Bei Dundar em 1298. Ismael Metin narra o seguinte sobre estes acontecimentos: “Os assassinatos dos membros da família real começaram desde o primeiro dia. Isto é um fato que comprova como o governo Otomano flutuaria num mar de sangue”. O fratricídio na família real continuaria toda vez que um novo sultão assumia o trono. Em 1451, ao assumir o trono, o sultão Mehmed II, conquistador de Constantinopla, matou não só o seu irmão Orhan, mas também assassinou o seu irmão recém-nascido, Ahmed, degolando-o. Referindo-se a isso, Ismael Metin escreve: “Matar um irmão recém-nascido é um ato de selvageria indescritível e inédita, que não tem sua semelhança na história”.

Assim, o sultão Mehmed II legalizou o fratricídio, que doravante seria chamada de “Lei Fratricida” ou “Kardech Katele”, como é conhecida na língua turca. Esta lei dita, literalmente: “Depois de mim, qualquer um dos meus filhos que assume o trono, convém que ele mate os seus irmãos, para a paz do mundo. Esta lei tem a aprovação da maioria dos religiosos”. Justificava-se essa lei pelo fato de ser preferível que um ou todos os membros da família real fossem exterminados, a perder o Império uma província como conseqüência de intrigas ou disputas na corte.

Com relação a essa lei, gostaria de apresentar dois esclarecimentos:

- Primeiro, com isso não só se eliminava um ou mais membros do sexo masculino da família real, como também era freqüente o assassinato de mulheres. A este aspecto, o historiador turco Prof. Dr. Ahmed Akman escreve no seu livro “O fratricídio no período da dominação Otomana”, (Osmanle devrindé kardach katele) Istambul, 1997, página 15: “Com a lei fratricida, o sultão podia executar não só seus irmãos, mas também os filhos destes. O pai tinha o direito de matar o filho, o avó podia matar seus netos, e assim por diante”. Com essa lei, o sultão recém empossado ao trono geralmente ordenava que as esposas gestantes e as noras do seu pai falecido também fossem executadas. Assim, para evitar que se nascessem crianças do sexo masculino, essas mulheres eram colocadas e amarradas em sacos de pano e atiradas nas águas profundas do mar de Marmara,. Tudo indica que, até mesmo o famoso escritor inglês William Shakespeare tinha noção dessa lei fratricida turca. Em sua peça teatral Henrique IV, ele refere-se a isso quando a personagem do rei da Inglaterra diz aos seus irmãos mais novos: “Não temeis, meus irmãos, aqui é a Inglaterra e não Turquia”. Evidentemente, Shakespeare referia-se à sucessão na família real da Inglaterra, que se realizava sem assassinatos.

- O segundo esclarecimento que gostaria de apresentar é o de que, se a maioria dos religiosos concordava com essa lei desumana, logo, haveria uma parcela desses que a rejeitava. Saliente-se que não existe lei semelhante no Alcorão, assim como não existe nada parecido nas doutrinas tradicionais do islamismo. E isso se comprova pelo fato de que em nenhum país do mundo islâmico tenha existido algo igual, a não ser no Império Otomano. Ao estabelecer e legalizar tal lei, o sultão Mehmed II pretendia usar o islamismo visando interesses políticos. Ismael Metin escreve o seguinte sobre o sultão Suleiman, o Magnífico: “A nossa atual República, fundada por Kemal Ataturk, organizou esplêndidos festivais nos Estados Unidos para glorificar um sultão que superou todas as metas no Império Otomano, o que concerne à sua selvageria sem precedência. Efetivamente, tão logo ele assumiu o trono, ele matou seus dois filhos, sete netos e os filhos do seu irmão. Já o sultão Mehmed III, um dos sucessores de Suleiman, que reinou de 1595 a 1603, num período de sete anos matou seus 19 irmãos, sendo que o mais velho tinha apenas... 12 anos de idade”. A Lei Fratricida vigorou até o ano de 1575. Depois dessa data, ela sofreu uma alteração: ao invés de serem executados, os irmãos do sultão eram enclausurados em salas chamadas “káfes”, isto é, jaula, onde era lhes tolerado apenas a se divertirem com suas concubinas e usar bebidas alcoólicas.

Na última parte do seu livro, Ismael Metin refere-se aos massacres em massa dos alevis na Turquia. Os sunitas, que constituíam a maioria, chamavam os alevis chiitas de infiéis. Não tolerando as árduas pressões, os alevis freqüentemente se revoltavam. Num desses movimentos, foram massacrados por volta de três mil alevis na região de Sebástia (vide “Baki Oz, Osmanledá Alveví Ayaklanmalare”, ou seja, “As revoltas dos avelis durante a dominação dos Otomanos”). Numa outra ocasião, o Paxá Kuyudju Murad encaminhou os crânios de trinta mil alevis para Istambul, exterminou cem mil desses e jogou os corpos em poços” (vide Metin, página 349). Em 1514, o sultão Selim I, que também era conhecido com o apelido de “Yavuz”, ordenou a matança de quarenta mil alevis sob a alegação de serem eles muçulmanos infiéis. (vide Metin, página 351; também Prof. Halil Inaltchek, no seu trabalho supra referido, página 90).

Depois de mencionar todas essas atrocidades turcas, é curioso notar que, certamente conhecendo as barbáries cometidas contra o povo armênio, Ismael Metin evita e em nenhum momento cita o hediondo acontecimento do Genocídio Armênio, organizado, planejado e perpetrado pelas autoridades turco-otomanas em 1915, talvez pelo simples fato de que, se ousasse fazer qualquer referência a esse tema, fatalmente o governo turco proibiria a publicação deste livro.

15 de janeiro de 2004.

(Artigo publicado em armênio no semanário “ Nor Gyank” (Nova Vida) de Glendale, CA., EE.UU.,
Vol. XXVI, No. 17, 08/04/2004 - páginas 30-32.
Tradução: Prof. Yervant Tamdjian)